terça-feira, 13 de setembro de 2011

A CRUZ DE CRISTO - 10 – A CONQUISTA DO MAL.

Embora a palavra morte” esteja aproximadamente associada a fim, destruição ou ruína, há um convite a todos nós para que olhemos a crucificação de outro ângulo: vitória ou conquista.

Este vocábulo – vitória – estava presente nos lábios e na pena dos escritores do 2.º Testamento - "Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou". (Rm 8,37); "Mas graças sejam dadas a Deus, que nos concede sempre triunfar em Cristo, e que por nosso meio difunde o perfume do seu conhecimento em todo lugar". (2Cor 2,14). E não é sem motivo que cada uma das sete cartas do Ap 2-3, termina com a expressão “ao vencedor”. Paulo bradou - "Graças, porém, seja dado a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo!" (1Cor 15,57). E todo o caminhar triunfante da Igreja só se tornou possível por causa do sangue do Cordeiro – "Mas estes venceram-no por causa do sangue do Cordeiro e de seu eloqüente testemunho. Desprezaram a vida até aceitar a morte". (Ap 12,11), o que nos remete a cruz.

I.                    AS DIMENSÕES DA VITÓRIA DE CRISTO.

Em – "Espoliou os principados e potestades, e os expôs ao ridículo, triunfando deles pela cruz". (Cl 2,15) Paulo atesta que, na cruz, Jesus triunfou sobre o mal. Stott sustenta que embora a derrota decisiva que Deus, por meios de Cristo, trouxe a Satanás se tenha dado na cruz, há seis etapas descritas nas Escrituras que representam o desenvolvimento desta conquista.

Þ     A predição da conquista – Gn 3,15.

Ás vezes esquecemos que o chamado “proto-evangelho” (primeiro evangelho) é, na verdade, uma sentença passada à serpente. Ou seja, Gn 3,15 é uma palavra de Deus para a serpente e não para o primeiro casal.

Þ     O inicio da conquista no ministério de Jesus.

Há vários fatos que comprovam o desígnio de Satanás em se livrar de Jesus, porque sabia que ali estava seu  futuro conquistador.

·         A matança dos meninos por ordem de Herodes – Mt 2,1-18;
·         A tentação no deserto - Mt 4,1-11;
·         Alguns homens que, após a multiplicação dos pães, queriam fazer de Jesus um rei – sem a cruz – Jo 6,15;
·         A repreensão ao apóstolo Pedro – para trás de mim, Satanás” – Mt 16,21-23;
·         A traição de Judas em que Satanás havia, de fato, “entrado” – Jo 13,27.

Toda via, mesmo antes da crucificação, há evidencias da vitória de Jesus sobre o mal. A expulsão de demônios - "Que tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos? Sei quem és: o Santo de Deus!" (Mc 1,24), a cura da enfermidade – "Jesus percorria toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo". (Mt 4,23) e a própria natureza  se submetendo a Ele - "E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Silêncio! Cala-te! E cessou o vento e seguiu-se grande bonança". (Mc 4,39) são alguns exemplos, além do relato dos discípulos que voltam da missão e a declaração do Senhor – “Vi Satanás cair do céu como um raio.” Lc 10,17-20.

Þ     A realização da conquista.

Em três ocasiões, Jesus se referiu ao diabo como “o príncipe deste mundo”:

o        "Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo". (Jo 12,31);
o        "Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo; mas ele não tem nada em mim". (Jo 14,30);
o        "ele o convencerá a respeito do juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado". (Jo 16,11).

Acrescentando que ele estava preste a “vir” – no sentido da lançar sua última ofensiva – mas que seria “expulso” e “julgado”. Os intérpretes do 2.º Testamento tem visto nestas palavras de Jesus  uma referência antecipada à vitória que Jesus aplicaria sobre os poderes das trevas por ocasião da sua crucificação.

O texto de Cl 2,1-15 demonstra isto ao relatar dois fatos que ocorriam enquanto o Cordeiro de Deus era moído e transpassado.

·         O perdão dos nossos pecados – O perdão veio mediante o cancelamento das dívidas.
·         O triunfo sobre os poderes das trevas – De que maneira a cruz de Cristo é um triunfo sobre os poderes das trevas? Paulo usa três verbos para retratar e derrotar o mal – “despojar”, “expor” e “triunfar”.

-                “Despojar” podia significar que Deus em Cristo “desnudou” os poderes das trevas  com se faz  com uma roupa imunda. E “desnudar” pode significar “desarmar”, “privar da posse ou poder”.
-                Ele “publicamente os expôs ao desprezo” “fez deles um espetáculo público”. Parece-nos que há uma espécie de “jogo de palavras”, porque a crucificação era também a exposição do criminoso ao público, todavia, na morte de Jesus Cristo, quem estava sendo exposto não era Ele, que não tinha crime algum - "Quando os pontífices e os guardas o viram, gritaram: Crucifica-o! Crucifica-o! Falou-lhes Pilatos: Tomai-o vós e crucificai-o, pois eu não acho nele culpa alguma". (Jo 19,6), mas os principados e potestades, que não conseguiram evitar que o Senhor não chegasse até a cruz, estes eram os verdadeiros desprezados e derrotados.
-                “Triunfando sobre eles na cruz” é provavelmente uma referência à procissão de cativos que celebrava a vitória. “Foi como se a cruz, que era cheia de vergonha, houvesse sido transformada numa carruagem triunfal”! Calvino

Satanás adquire poder sobre o homem – condenado a viver distante de Deus através do pecado trazido ao mundo pela serpente. Cristo, ao cancelar e remover o pecado, desarmou, desacreditou e derrotou os poderes das trevas. Ele também venceu o mal mediante a resistência total às suas tentações - "E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz". (Fl 2,8). “Se Jesus tivesse desobedecido, desviando-se um pouquinho que fosse do caminho da vontade de Deus, o diabo teria ganhado um ponto e frustrado o plano da salvação” – Stott.

Þ     A ressurreição foi a confirmação e o anúncio da conquista – At 2,24; Ef 1,20-23; 1Pe 3,22.

A cruz foi a vitória conquistada e a ressurreição a vitória endossada. Aquele que começou seu ministério anunciando a vida não poderia termina-lo tragado pela morte. E os poderes das trevas que haviam sido privados de suas armas e domínio na cruz, agora, como conseqüência da derrota, foram colocados sob os pés de Cristo e sujeitos a Ele.

Þ     A extensão da conquista.

A conversão é descrita na Bíblia não apenas como processo de levar os homens do pecado para Cristo, mas também de “convertê-los das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus”, “dos ídolos para servir o Deus vivo e verdadeiro”, “do império das trevas para o reino do filho do mundo”  - At 26,18; 1Ts 1,9; Cl 1,13 - . Isto significa  que a medida que pessoas vão se convertendo, as trevas se vão dissipando e a luz vai brilhando. O poder de Deus chega e o mal perde o controle ou domínio da vida escravizada.

Þ     A consumação da conquista.

Na verdade, a conquista do mal é um processo. Começou na cruz e caminhará até a consumação do século. Quando Cristo morre, a cabeça da serpente é esmagada e o diabo tem os seus dias contados. A partir daí, Deus está aguardando o Senhor colocar todos os seus inimigos debaixo dos seus pés – “Cristo ofereceu pelos pecados um único sacrifício e logo em seguida tomou lugar para sempre à direita de Deus, onde espera de ora em diante que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés (Sl 109,1).” Hb 10,12-13. Quando isto acontecer, “todo o joelho se dobrará em sua presença e toda a língua confessará que ele é o Senhor”  - Fl 2,9-11. O diabo será jogado no lago de fogo, onde a morte e o inferno o seguirão .  Então,  quando todo o domínio, autoridade e poder do mal tiverem sido destruídos, o Filho entregará o reino ao Pai, e Ele será tudo em todos – Ap 20,10.14; 1Cor 15,24-28.

II.                  DESFRUTANDO DA VITÓRIADE CRISTO.

Nós precisamos, como cristãos aprender quem somos em Cristo Jesus. Olhando para alguns textos do 2.º Testamento, aprendemos que temos o “direito” de desfrutar de algumas coisas que Cristo conquistou pelo reino do Pai para nós, os seus co-herdeiros – 1Jo 2,13; Ef 2,5-6; Ap 3,21.

Entretanto, não é tão simples assim, porque embora o diabo tenha sido derrotado,ele ainda não admitiu a derrota. Na verdade, como diz o título de um livro, ele continua “vivo e ativo no planeta terra”. E isso traz muita tensão, tanto para a nossa teologia quanto para a nossa experiência. Parece um paradoxo:  recebemos a certeza de que aquele que é nascido de Deus “o maligno não lhe toca”, mas recebemos também aviso para vigiar porque o nosso adversário, o diabo, “anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” – 1Jo 5,18; 1Pe 5,8.

Porem existe o dilema cristão-teológico do “já” e do “ainda não”. O reino de Deus já foi instaurado, Cristo já morreu por nossos pecados, Ele já triunfou sobre principados e potestades na cruz; mas a era antiga ainda não passou completamente. Já somos filhos de Deus, e não mais escravos; mas ainda não entramos na “liberdade da gloria dos filhos de Deus” – 1Jo 2,8; Rm 8,21. Sabemos que Jesus veio destruir as obras do diabo - "Aquele que peca é do demônio, porque o demônio peca desde o princípio. Eis por que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do demônio". (1Jo 3,8). Vejamos quais são elas:

Þ     A cruz de Cristo aboliu a tirania da LEI.

Paulo diz - "Por conseguinte, a lei é santa e o mandamento é santo, e justo, e bom..". (Rm 7,12). Porém ela condena a desobediência, levando-nos assim à sua “maldição”  ou juízo - "Cristo remiu-nos da maldição da lei, fazendo-se por nós maldição, pois está escrito: Maldito todo aquele que é suspenso no madeiro (Dt 21,23)". (Gl 3,13). É nesse sentido que “Cristo é o fim da lei” e já não estamos “sob” ela - "Porque Cristo é o fim da lei, para justificar todo aquele que crê". (Rm 10,4). Contudo, isto não quer dizer que de agora em diante já não existem absolutos morais a não ser amor, ou que já não temos obrigação de obedecer a lei de Deus. O que acontece é que a lei não nos escraviza por meio da sua condenação ou maldição, porque não estamos “debaixo” dela  - "O pecado já não vos dominará, porque agora não estais mais sob a lei, e sim sob a graça". (Rm 6,14). Estamos “em Cristo” e já nenhuma condenação há para estes – Rm 8,1-4. devemos lembrar que na tentação de Jesus o maligno “usou” as Escrituras de forma errada. Ele ainda as usa para tentar escravizar os filhos de Deus, como instrumento de acusação ou condenação. Mas Cristo nos libertou da impossível missão de guardar a lei - "Porque julgamos que o homem é justificado pela fé, sem as observâncias da lei". (Rm 3,28); "Pois quem guardar os preceitos da lei, mas faltar em um só ponto, tornar-se-á culpado de toda ela". (Tg 2,10). Então, é neste sentido que recebemos a libertação da lei. Mas antes de encerrar este ponto, atente para esta frase – “Devo observar a lei não para ser salvo, mas porque já sou salvo.”

Þ     A cruz de Cristo desfez a tirania da CARNE.

A carne é a nossa natureza caída, herdade de Adão, a qual se abre para o pecado. Algumas das obras da carne são bem conhecidas de todos nós – imoralidade sexual; alcoolismo, idolatria, feitiçarias, ódio, ciúme, ira, inimizades, etc. Quem vive na prática destas e outras coisas semelhantes a estas, diz a Escritura - "Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo". (Jo 8,34); “Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus!” (Gl 5,19-21). Nossa liberdade só é possível através de Jesus, pelo poder do Espírito Santo - "Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres". (Jo 8,36); "De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis," (Rm 8,13).

Þ     A cruz de Cristo anulou a tirania do MUNDO.

“Se a carne é ponto de apoio que o diabo tem dentro de nós, o mundo é o meio pelo qual ele exerce pressão de fora sobre nós” – Stott.

Esse “mundo” é a sociedade humana sem Deus que, por isso, abre suas portas para toda influencia maligna - "Sabemos que somos de Deus, e que o mundo todo jaz (está deitado, reciclado) sob o Maligno". (1Jo 5,19). As três coisas que caracterizam o mundo são “a concupiscência (desejo de coisas proibidas) da carne, a concupiscência  dos olhos e a soberba da vida”, Jesus, porém, replicou - "Referi-vos essas coisas para que tenhais a paz em mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo". (Jo 16,33).

Ele venceu rejeitando, por completo, seus valores distorcidos e fixando os olhos somente na verdade do Pai, através de Cristo, também podemos vencer o mundo – “porque todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o vencedor do mundo senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1 Jo 5,4-5). Nada tem mais poder  para nos afastar do mundanismo que a cruz de Cristo - "Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo". (Gl 6,14).

Þ     A cruz de Cristo destruiu a tirania da MORTE.

Esta verdade está muito clara em – “Porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão.” (Hb 2,14-15). O medo da morte é próprio do ser humano. É necessário lembrarmos que a morte é o salário do pecado, ou seja, é um castigo - "Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo," (Hb 9,27).

Paulo comparou a morte a um escorpião cujo aguilhão (ferrão) foi retirado, e a um conquistador militar  cujo poder foi quebrado - "A morte foi tragada pela vitória (Is 25,8). Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão (Os 13,14)?" (1Cor 15,55). Agora que Cristo tirou nossos pecados, que fomos perdoados, a morte já não nos pode causar danos, nem nos apavorar, mas ela ainda continua sendo um inimigo desnaturado, desagradável e indigno - "O último inimigo a derrotar será a morte, porque Deus sujeitou tudo debaixo dos seus pés". (1Cor 15,26). Jesus nos deu livramento ao proclamar – “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?” (Jo 11,25-26).

CONCLUINDO

O mal entrou no mundo através do pecado porque o homem abriu-lhe a porta. Para ele poder sair, Cristo teve de derramar seu precioso sangue não cruz, porque “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9,22b). No Apocalipse, a derrota de Satanás vem por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que homens deram, homens que mesmo em face da morte, não amarram a própria vida - "Mas estes venceram-no por causa do sangue do Cordeiro e de seu eloqüente testemunho. Desprezaram a vida até aceitar a morte". (Ap 12,11). Sendo assim, a vitória sobre o mal tem dois lados para a humanidade – crer no sangue do Cordeiro e confessar com a própria língua o senhorio de Jesus. Daí o livro de Provérbios nos ensinar que "Morte e vida estão à mercê da língua: os que a amam comerão dos seus frutos". (Pr 18,21). O mal já foi conquistado, mas o homem precisa crer naquele que conquistou.

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