quinta-feira, 18 de março de 2021

Propiciatório e propiciação na Bíblia

 


(1) O propiciatório é uma peça de ouro que está ligada a famosa arca da aliança, aquela peça que ficava dentro do tabernáculo (e também do templo construído depois), no Santo do santos, que era o local mais restrito do tabernáculo, onde somente o Sumo Sacerdote podia entrar apenas uma vez ao a no para realização dos rituais do dia da expiação (Levítico 16:34). O propiciatório é exatamente a tampa da arca da aliança. Nele temos os dois querubins de ouro, um de frente para o outro, com suas asas estendidas, olhando para a tampa (Levítico 25:17-22). Mas por que ele tem esse nome? 



(2) O propiciatório, juntamente com a Arca da Aliança, simbolizava a presença de Deus em meio ao povo. Por isso, na Lei de Moisés, uma vez ao ano o sumo sacerdote levava o sangue de um animal para ser aspergido (respingado) justamente na tampa da arca (o propiciatório). Esse ato significava que Deus aceitou o sangue de uma vítima inocente em lugar do sangue dos pecadores, trazendo-lhes a restauração, perdoando seus pecados. Por isso o propiciatório tem esse nome, porque vem da palavra propiciação (falaremos dela abaixo). Sendo assim, o propiciatório, além de ser a tampa da arca, representava um lugar de expiação dos pecados! 


(3) Agora que sabemos o que é o propiciatório, vamos compreender melhor o conceito de propiciação no antigo testamento. Sabemos que o pecado é uma afronta a Deus. Que Deus derrama sua justiça como punição sobre os pecadores e que a Bíblia muitas vezes chama isso de “ira de Deus”. Sendo todos pecadores, quem poderia escapar da ira de Deus? Certamente ninguém pode escapar pelos seus próprios méritos! Mas Deus, que é rico em misericórdia, estabeleceu meios para que fornecesse a nós o Seu perdão. A propiciação é um desses meios! 


(4) Na propiciação Deus aceita o sangue substituto ao do pecador, ou seja, Deus aceita que o sangue do sacrifício (de animais no Antigo Testamento) seja dado no lugar do sangue do pecador que merecia morrer para que haja perdão e reconciliação. Isso tudo se chama propiciação. No Novo Testamento esse conceito ganha maiores proporções, pois Jesus Cristo vem oferecer Seu sangue em lugar do sangue dos pecadores arrependidos, de uma vez por todas e de modo perfeito. É por isso que João explica: “e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro” (1 João 2:2). Ele, mencionado no texto, é Jesus Cristo. Ele derramou Seu sangue na presença de Deus em nosso favor! 


(5) Mas por que Deus precisaria da morte dos pecadores? Ele não poderia simplesmente perdoar todo mundo? Deus age com base na Sua justiça e palavra e vemos na Bíblia que Deus estabeleceu a morte para a desobediência: “mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17). Além disso, com base na Sua justiça, Deus requer arrependimento dos pecadores. Assim, Deus poderia simplesmente decretar a punição eterna a todos os pecadores e estaria sendo totalmente justo, pois todos nós pecamos. Mas Ele, em amor, nos dá caminhos de reconciliação! Aos que rejeitam esses caminhos não cabe outra coisa senão enfrentar a justiça do Senhor!

quarta-feira, 17 de março de 2021

4 segredos bíblicos para enfrentar as crises e sair vitorioso

 





Segredo 1 – Creia que Deus é o seu refúgio e fortaleza

No Salmos  46 verso 1 o salmista nos revela que “Deus é o nosso refúgio e fortaleza…”. Essas duas palavras do texto, “refúgio e fortaleza”, nos passam uma mensagem muito poderosa de Deus. Ser refúgio é ser nossa proteção; ser fortaleza é ter poder para ser nossa proteção. Imagine você se proteger de uma tempestade em uma casa frágil de papelão. Dificilmente conseguiria se proteger. Agora se você se abrigar de uma tempestade em uma casa construída sobre fortes alicerces, ai sim estará protegido. Deus deixa claro que Ele está ao nosso lado no caminho que estamos trilhando, nos guiando e fornecendo a nós tudo que é necessário para andarmos nesse caminho e chegarmos até o fim, cumprindo a vontade Dele e sendo, dessa forma, vitoriosos, independentemente do tipo de tribulação que passemos nesse caminho. Ele é o nosso alicerce poderoso. 



Segredo 2 – Creia que Deus é o seu socorro PRESENTE

Somos seres humanos, sujeitos a todo tipo de fraqueza. Enquanto estamos trilhando os caminhos de Deus e buscando a nossa vitória a cada dia, sabemos que poderemos ser impactados com as dificuldades do caminho e as nossas fraquezas podem aparecer para nos atrapalhar. Deus sabe disso, por isso, nos diz que Ele é “socorro bem presente nas tribulações.” (Sl 46:1). Minha filhinha está aprendendo a andar. Às vezes paro na frente dela, sento-me no chão a uma certa distância e estendo os braços, chamando-a para andar em minha direção. Algumas vezes ela vem com toda ousadia aos meus braços, em outras, parece ficar preocupada, com medo, com dúvidas e ameaça cair… e é nesse momento que eu estou ali por perto para socorrê-la da melhor forma possível. Estou presente na dificuldade dela. Assim é Deus para conosco!

Segredo 3 – Creia e não deixe o medo te dominar

O medo pode ter vários poderes sobre a nossa vida. Mas o mais terrível poder é quando o medo nos faz desistir, nos faz perder de vista quem é Aquele que está conosco, o nosso refúgio e fortaleza. Quando o medo nos domina e nos faz focar os olhos em situações difíceis para nos desanimar, ele exerce esse poder sobre nós e nos derrota. O salmista deixa claro sua posição, nos revelando mais um segredo daqueles que enfrentam e vencem as suas crises: “Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares…” (Sl 46:2). Por mais difícil e desesperadora que possa ser uma situação, o salmista é otimista e não permite que o medo o domine e o paralise. No lugar do medo ele cultiva a fé e descansa debaixo do poder de Deus e da proteção Dele.

Segredo 4 – Creia que Deus é soberano sobre tudo e descanse

Nós gostamos de ter o controle absoluto sobre tudo. Ah, se pudéssemos controlar tudo que acontece conosco, toda nossa vida, os resultados! Mas logo descobrimos que isso não é possível, pois somos limitados. Por causa disso muitas pessoas desenvolvem graves problemas psicológicos por causa do estresse, da ansiedade e de um desgaste tremendo por causa das preocupações. Na nossa caminhada até a vitória não podemos nos esquecer da soberania de Deus. Ele é o dono do caminho, Ele quem nos guia, Ele é quem nos protege, quem nos socorre quando necessário. O salmista pensando em tudo isso nos mostra o que Deus deseja de nós: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra.” (Sl 46:10). Podemos aquietar o nosso coração e descansar na certeza, no “saber” que temos a respeito do Deus a quem servimos.

Atitudes que Deus quer ver em nós nos momentos de dificuldades

 

(1) Tenha disposição para lutar mesmo que o inimigo seja grande

Quando o franzino Davi (provavelmente com menos de 20 anos de idade aqui) percebe que o gigante Golias trazia dificuldades ao seu povo e que a maioria dos homens de seu povo estava acovardado diante dele, Davi se apresenta ao rei com disposição para lutar: “Davi disse a Saul: Não desfaleça o coração de ninguém por causa dele; teu servo irá e pelejará contra o filisteu” (1 Samuel 17:32). Essa disposição vem de um coração cheio de fé e é uma atitude que agrada profundamente a Deus. Crie em seu coração essa disposição, não importando o tamanho do inimigo!

(2) Tenha disposição para tentar

Pessoas para te desanimar diante de uma luta existem aos montes. Quando Davi se dispõem para enfrentar o gigante Golias, ao invés de ser incentivado a lutar, ele é incentivado a desistir e não tentar: “Porém Saul disse a Davi: Contra o filisteu não poderás ir para pelejar com ele; pois tu és ainda moço, e ele, guerreiro desde a sua mocidade” (1 Samuel 17:33). Davi, porém, não aceita tal argumento e insiste que ele deveria ao menos tentar. Essa atitude de confiança agrada a Deus, pois cem por cento das pessoas que nunca tentam nunca vencem. 



(3) Tenha confiança em Deus

Fé em Deus é algo muito importante quando enfrentamos batalhas. A fé que Davi tinha sustentou as suas convicções, a sua força e o seu desejo de tentar resolver aquela situação difícil que seu povo passava naquele momento. Fé nos momentos de crise é algo muito importante: “Disse mais Davi: O SENHOR me livrou das garras do leão e das do urso; ele me livrará das mãos deste filisteu. Então, disse Saul a Davi: Vai-te, e o SENHOR seja contigo” (1 Samuel 17:37). Davi creu que não estava sozinho. Davi creu na vitória. Davi creu que podia. Davi creu…


(4) Tenha Foco no necessário

Todos estavam preocupados com Davi. Arrumaram até mesmo uma armadura provisória para que ele tivesse alguma chance, já que ninguém acreditava que de fato Ele pudesse vencer aquela luta. Muitas coisas desnecessárias nos atrapalham a enfrentar as nossas lutas e vencê-las. Davi focou na luta e tirou aquela armadura que só o atrapalhava: “Davi cingiu a espada sobre a armadura e experimentou andar, pois jamais a havia usado; então, disse Davi a Saul: Não posso andar com isto, pois nunca o usei. E Davi tirou aquilo de sobre si” (1 Samuel 17:39). Devemos também identificar e tirar da nossa vida tudo que é desnecessário, seja a falta de fé, o medo, as fraquezas, as tristezas. Tire isso tudo que só te atrapalha e fique somente com o necessário para lutar e vencer! 


(5) Lute com as armas que têm em mãos

Não espere ter um tanque de guerra ou ser um super-herói para enfrentar as suas lutas e vencê-las. Deus quer que você lute da forma que sabe, com o que tem nas mãos, com as habilidades que ele te deu, agora mesmo. Davi foi com tudo para cima do gigante com as armas que possuía e que sabia usar: “Tomou o seu cajado na mão, e escolheu para si cinco pedras lisas do ribeiro, e as pôs no alforje de pastor, que trazia, a saber, no surrão; e, lançando mão da sua funda, foi-se chegando ao filisteu” (1 Samuel 17:40). Identifique as suas armas. Use aquilo que Deus já te ensinou até agora. Use! Lute! 


(6) Use as armas espirituais nas suas lutas

Davi sabia que simples pedras não seriam suficientes para derrubar um gigante guerreiro. Mas sabia que algumas pedras nas mãos de um Deus que luta pelos Seus servos seriam suficientes para derrubar aquele gigante. Use as armas espirituais: oração, fé, jejum, adoração, consagração, etc. Essas armas vão te ajudar a derrubar os gigantes da sua vida: “Davi, porém, disse ao filisteu: Tu vens contra mim com espada, e com lança, e com escudo; eu, porém, vou contra ti em nome do SENHOR dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado” (1 Samuel 17:45).

Davi venceu. Venceu porque lutou. Venceu porque não ficou acovardado como os demais. E você, por que não venceu ainda?

Onde temos a palavra “metanoia” na Bíblia e o que significa?

 



(1) Vamos falar primeiro sobre o uso da palavra metanoia na Bíblia. Em primeiro lugar, “metanoia” é uma palavra grega. Ela vem de outra palavra grega “metanoeo”, que significa uma “mudança de mente”. A ideia dessa palavra é demonstrar o que acontece com alguém que se arrepende, que muda de direção, que muda sua mente, muda de propósitos que anteriormente tinha e agora não os quer mais, pois os substitui por outros. 




(2) Dentro das traduções para o português, geralmente a palavra grega “metanoia” é traduzida na maioria das Bíblias (falando, é claro, do Novo Testamento), por “arrependimento”. Isso significa que onde você lê a palavra “arrependimento” em português, ali está (nos originais) a palavra “metanoia”. Vejamos um exemplo: “Eu vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mateus 3:11). Observe que nesse texto a ideia é que João Batista batizava com água para “metanoia”, ou seja, o que se esperava era uma mudança de mente, uma transformação da maneira de pensar e, consequentemente, de agir. 


(3) Vejamos mais um exemplo: “Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento (metanoia)” (Lucas 5:32 – Entre parentes acréscimo meu). Jesus diz aqui que veio realizar uma missão na vida daqueles que estavam perdidos, que andavam em uma direção que não agradava a Deus, portanto, eram pecadores e carregavam a condenação de seu pecado. Jesus veio chamá-los para uma “metanoia”, uma mudança total de vida, de direção, de pensamentos, que é uma característica daquele que se arrepende verdadeiramente diante do Senhor! Isso é a “metanoia” citada na Bíblia! 


(4) Para aguçar ainda mais sua curiosidade, coloco na sequência mais alguns textos bíblicos interessantes onde aparece a palavra “metanoia” no grego (arrependimento na tradução em português):

– Mateus 3:8

– Mateus 3:11

– Mateus 9:13

– Marcos 1:4

– Lucas 3:3

– Lucas 3:8

– Lucas 5:32

– Lucas 15:7

– Lucas 24:47

– Atos 5:31

– Atos 11:18

– Atos 13:24

– Atos 19:4

– Atos 20:21

– Atos 26:20

– Romanos 2:4

– 2 Coríntios 7:9

– 2 Coríntios 7:10

– 2 Timóteo 2:25

– Hebreus 6:1

– Hebreus 6:6

– Hebreus 12:17

– 2 Pedro 3:9

segunda-feira, 15 de março de 2021

A Origem e Queda de Satan

 



Na história do Universo nunca houve – nem haverá – traição maior. A criatura que representava a mais magnificente obra de seu Criador ressentiu-se de que sua glória era apenas emprestada, de que o papel que lhe estava destinado era o de tão somente refletir a infinita majestade do Deus que lhe deu o fôlego da vida. Dessa maneira, nasceu no coração de Lúcifer – e, em última análise, no recém-criado universo moral – o desprezível impulso da rebelião. Esse impulso originou a insurreição angélica que foi a mais terrível sedição na história em todos os tempos.


Uma questão preliminar 


Por mais importante e original que tenha sido essa rebelião angélica, as Escrituras não incluem um registro específico do evento. No Antigo Testamento, Satanás aparece pela primeira vez no relato da queda de Adão (Gn 3). Ali, no entanto, ele já era o tentador caído que seduziu os primeiros seres humanos ao pecado. Dessa forma, já no início das Escrituras, a queda de Satanás é tratada como fato. Mas, por razões que não são esclarecidas em nenhum lugar, o próprio relato de sua queda está ausente nesse registro. 


Ainda assim, o evento é lembrado duas vezes nos escritos dos profetas: por Isaías, em meio a uma inspirada diatribe contra a Babilônia (Is 14.11-23), e, mais tarde, por Ezequiel, quando ele repreende duramente o rei de Tiro (Ez 28.11-19). Essas duas passagens contam-nos a maior parte do que sabemos sobre a queda de Satanás. 


Entretanto, aqui temos algumas dificuldades exegéticas. Em ambas as passagens, a menção da rebelião de Lúcifer aparece abruptamente num contexto que não trata, especificamente, de Satanás. Esse fato levou muitos estudiosos da Bíblia a rejeitar a ideia de que as passagens se referem a uma rebelião luciferiana e a insistir que elas focalizam exclusivamente os governantes humanos das nações pagãs às quais são dirigidas. 


Apesar disso, é preferível entender que Isaías e Ezequiel propositalmente queriam levar os leitores para além dos crimes de reis humanos, guiando-os até a percepção do grande arquétipo do mal e da rebelião, o próprio Satanás. Essas passagens incluem descrições que, mesmo levando em conta a inclinação ao exagero por parte de governantes da Antiguidade, não poderiam ser atribuídas a qualquer ser humano. O emprego da primeira pessoa do singular (por exemplo: “Eu subirei...”; “exaltarei o meu trono...”; “me assentarei...”) em Isaías 14.13-14 refletiria um nível de ostentação indicativo de insanidade, caso fosse proferido por um mero ser humano, mesmo em se tratando de um dos monarcas pagãos babilônicos, que a si mesmos divinizavam. E qual rei de Tiro poderia ser descrito como “cheio de sabedoria e formosura... Perfeito... nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado...” (Ez 28.12,15)? 


Além disso, a Bíblia ensina explicitamente que a perversidade do mundo visível é influenciada e animada por um domínio povoado por espíritos caídos, invisíveis (Dn 10.12-13; Ef 6.12), e que, em sua campanha traiçoeira e condenável de frustrar os propósitos do Deus verdadeiro, esses espíritos maus são dirigidos por Satanás, o “deus deste século” (2 Co 4.4). 


É característico dos escritores bíblicos fazer a conexão entre o mundo visível e o invisível, e isso de forma tão abrupta que pega o leitor momentaneamente desprevenido. Quando Pedro expressou seu horror ante o pensamento da morte de Jesus, o Senhor lhe respondeu “Arreda, Satanás!” (Mt 16.23; cf. 4.8-10). De forma semelhante, repentinamente e sem aviso, o profeta Daniel pula de uma descrição profética sobre Antíoco Epifânio (Dn 11.3-35) para uma descrição similar do Anticristo dos tempos do fim (Dn 11.36-45). Antíoco, governante selêucida no período inter-testamentário, precede o vilão maior que conturbará a terra nos últimos dias. Um salto abrupto e não-anunciado do mundo político ganancioso, auto-engrandecedor, visível, para o drama arquetípico que se desenrola num mundo invisível aos seres humanos – mas que, apesar de não ser visto, deu origem às atitudes denunciadas nessas passagens –, tal salto não está fora de lugar nas Escrituras.


Finalmente, por trás das conexões feitas nessas duas passagens pode muito bem estar um tema que freqüentemente retorna nas Escrituras. Nos tempos primitivos da Terra após a queda, os rebeldes de Babel estavam determinados a construir “uma cidade e uma torre” (Gn 11.4). A cidade era um centro de atividade comercial, enquanto a torre representava o ponto focal do culto pagão. Essa dupla caracterização do cosmo como expressão de egoísmo (o espírito ganancioso do comercialismo não-santificado) e de rebelião (a busca por ídolos) ressoa ao longo de toda a Palavra de Deus, chegando a um clímax em Apocalipse 17-18, onde anjos que se mantiveram fiéis a Deus anunciam a tão esperada e muito merecida destruição da Babilônia religiosa e comercial. 


É instrutivo notar que enquanto todo o trecho de Ezequiel 26-28 repreende severamente a Tiro – o mais importante centro de comércio e de riqueza nos dias desse profeta – Isaías 14 denuncia Babilônia, que representa o centro da falsa religião ao longo de toda a Escritura. Talvez essa caracterização do cosmo caído como “cidade e torre” – tão importante naquilo que a Escritura afirma em relação ao mundo em rebelião contra Deus – ajude a explicar o salto dado pelos profetas nas passagens que consideramos. Quando contemplavam a cultura de seu tempo, que incorporava perfeitamente um elemento do cosmo caído, cada um deles se sentiu compelido pelo Espírito superintendente de Deus a focalizar a rebelião angélica dos tempos primitivos, a qual animava a rebelião humana que estavam denunciando. 


Dessa forma, essas duas críticas severas, que identificam os espíritos perversos de cobiça inescrupulosa e rebelião espiritual, ajudam a explicar por que tais espíritos predominam tantas vezes ao longo da história humana. Os textos referidos, ao mesmo tempo, também antecipam a destruição profeticamente narrada em Apocalipse 17 e 18. 


A linhagem de Satanás 


De Isaías 14 e Ezequiel 28 emerge um quadro relativamente extenso de Satanás antes de sua rebelião. 


Sua pessoa: Ele foi o ser mais exaltado de toda a criação (Ez 28.13,15), a mais grandiosa das obras de Deus, um ser celestial radiante, que refletia da maneira mais perfeita o esplendor de seu Criador. Assim, ele apropriadamente era chamado de Lúcifer. Essa palavra vem de uma raiz hebraica que significa “brilhar”, sendo usada unicamente como título para referir-se à estrela de maior brilho e cujo resplendor mais resiste ao nascimento do Sol. O nome Lúcifer tornou-se amplamente usado como título para Satanás antes de sua rebelião porque é o equivalente latino dessa palavra. Na realidade, é difícil saber com certeza se o termo foi empregado com o sentido de nome próprio ou de expressão descritiva. 


Seu lugar: Ezequiel afirmou que esse anjo exaltado estava“no Éden, jardim de Deus” (Ez 28.13). Aqui, a referência não é ao Éden terreno que Satanás invadiu para tentar a humanidade, mas à sala do trono em que Deus habita em absoluta majestade e perfeita pureza (veja Is 6; Ez 1). Ezequiel 28 também chama esse lugar de “monte santo de Deus”, onde Lúcifer andava “no brilho das pedras” (v. 14).Essas descrições não são apropriadas ao Éden terreno, mas adequadas à sala do trono de Deus, conforme representações em outros lugares da Escritura.


Sua posição: Satanás é denominado “querubim da guarda ungido” (Ez 28.14). Querubins representam a mais alta graduação da autoridade angélica, sendo seu papel guardar simbolicamente o trono de Deus (compare os querubins esculpidos flanqueando a arca da aliança – o trono de Javé – no Tabernáculo ou Templo, Êx 25.18-22; Hb 9.5; cf. Gn 3.24; Ez 10.1-22). Lúcifer foi ungido (consagrado) por sentença deliberada de Deus (Ez 28.14: “te estabeleci”) para a tarefa indizivelmente santa de guardar o trono do todo-glorioso Criador. Ele é descrito como sendo dotado de beleza inigualável, vestido de luz radiante, equipado com sabedoria e capacidade ilimitadas, mas também criado com o poder de tomar decisões morais reais. Portanto, a obrigação moral mais básica de Satanás era a de permanecer leal a Deus, de lembrar sempre que, independentemente de quão elevada fosse a sua posição, seu estado era o de um ser criado.


A queda de Satanás 


Neste ponto, encontramo-nos diante de um dos mais profundos mistérios do universo moral, conforme revelado nas Escrituras: “Como é que o pecado entrou no universo?” Está claro que a entrada do pecado tem conexão com a rebelião de Satanás. Mas, como foi que o impulso perverso surgiu no coração de alguém criado por um Deus perfeitamente santo? Diante de tal enigma, temos de reconhecer que as coisas encobertas de fato pertencem a Deus; as reveladas, no entanto, pertencem a nós (Dt 29.29). E três dessas realidades claramente reveladas merecem ser enfatizadas: 


Primeiro: a queda de Lúcifer foi resultado de sua insondável e pervertida determinação de usurpar a glória que pertence unicamente a Deus. Esse fato é explicitado em uma série de cinco afirmações que empregam verbos na primeira pessoa do singular, conforme registradas em Isaías 14.13-14. Nisto consiste a essência do pecado: o desejo e a determinação de viver como se a criatura fosse mais importante que o Criador. 


Segundo: Satanás é inteira e exclusivamente responsável por sua escolha perversa. Nisso existe uma dimensão inescrutável. Alguns têm argumentado que Deus deve ter Sua parcela de responsabilidade por este (e todo outro) crime, porque, caso fosse de Seu desejo, poderia ter criado um mundo em que tal rebelião fosse impossível. Outros dizem que, se Deus tivesse criado um mundo em que apenas se pudesse fazer o que o seu Criador quisesse, nele não poderiam ser incluídos agentes morais feitos à imagem de Deus, dotados da capacidade de tomar decisões reais – e, conseqüentemente, de escolher adorar e amar a Deus. Há verdade nessa observação, mas também há mistério. O relato deixa claro que o orgulho fez com que Lúcifer caísse numa terrível armadilha (Is 14.13-14; Ez 28.17; cf. 1 Tm 3.6), mas nada explica como tal orgulho de perdição pode surgir no coração de uma criatura de Deus não caída e perfeita.


No entanto, não há mistério quanto ao fato de que Satanás é, totalmente e com justiça, responsável pelo seu crime. Ezequiel 28.15 afirma explicitamente que Lúcifer era perfeito desde o dia em que foi criado, “até que se achou iniqüidade em ti”. A culpabilidade moral é dele, e apenas dele. Na verdade, em toda sua extensão, a Bíblia afirma que Deus governa soberanamente o universo moral e controla todas as coisas – inclusive a maldade de homens e anjos – para que correspondam aos seus perfeitos propósitos. Mas ela também ensina que Deus não deve e não será responsabilizado por essa maldade, em qualquer sentido.


Finalmente, por causa de sua rebelião, Satanás tornou-se o arqui-inimigo de Deus e de tudo o que é divino. Sua queda – bem como a dos espíritos que se uniram a ele – é irreversível; não há esperança de redenção. Satanás foi privado da comunhão com o Deus santo de forma final e irrecuperável. Para ser exato, Satanás ainda tem acesso à sala judicial do trono do Universo por causa de seu papel de acusador dos irmãos, papel este que lhe foi designado divinamente (Jó 1 e 2; Zc 3; Lc 22.31; Ap 12.10). Tal acesso, no entanto, é destituído da comunhão com Deus ou da Sua aceitação. Devido à sua traição, que foi a mais terrível na história do cosmo, Satanás e seus anjos somente podem esperar a condenação e a punição eternas (Mt 25.41).


Por que Isaías 45:7 diz que Deus é o criador do mal?

 





(1) De fato, o texto de Isaías, se considerado de forma isolada, causa certa confusão, veja: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” (Isaías 45:7). Para a compreensão desse texto, primeiro falemos um pouco do contexto: Deus está trazendo uma profecia sobre um homem que Ele mesmo levantaria no futuro, que iria se chamar Ciro (Isaías 45:1). Esse homem não seria alguém que conheceria a Deus, seria um pagão (Isaías 45:4), mas Deus iria usá-lo para trazer juízo a muitas nações (Isaías 45:2). Ciro seria também usado para abençoar a Israel (Isaías 45:4). De fato, Ciro teve importante papel na volta de Israel do exílio babilônico muito tempo depois dessa profecia de Isaías, conforme nos mostra o texto bíblico (Esdras 1:1). 




(2) Porém, no texto Deus deixa claro que Ele, o Senhor, é quem está na direção de todo esse poder que Ciro teria. Deus diz frases interessantes que mostram isso, como: “Eu irei adiante de ti, endireitarei os caminhos tortuosos, quebrarei as portas de bronze e despedaçarei as trancas de ferro” (Isaías 45:2). Observe a ênfase no próprio Deus agindo por meio de Ciro. Deus queria deixar isso muito claro. Deus também fala de Sua grandeza, soberania e autoridade para fazer essa profecia se realizar: “Eu sou o SENHOR, e não há outro; além de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que não me conheces” (Isaías 45:5). Dentro desse contexto temos a frase objetivo de nossa análise, onde Deus diz que “cria as trevas” e “cria o mal”. Vamos compreender melhor agora cada uma dessas expressões dentro desse contexto: 


(3) Deus faz dois contrastes que precisam ficar claros: 


(i) formo a luz e crio as trevas. Observe que no primeiro contraste temos a menção de luz e trevas que, nesse contexto, apontam para a bênção de Deus a Israel (luz) e o terrível juízo que Deus traria a muitos povos (trevas). No contexto, Deus traria através de Ciro bênçãos ao povo de Israel (luz) e juízo para os povos conquistados por Ciro (trevas). Não temos no primeiro contraste nenhuma intenção de apontar Deus como criador do pecado, do que é maligno, do mal moral, mas sim de Deus no controle da bênção derramada e também do juízo que traria muitas dores a muitos. 


(ii) faço a paz e crio o mal. Esse contraste fica ainda mais claro. Observe que paz não é o contrário de mal, mas de guerra, de calamidade, de desordem. E é exatamente esse o foco aqui. Deus mostra que tem o poder em Suas mãos tanto de fazer as condições para a paz (no caso, aqui, da paz sobre Israel que seria conduzida futuramente de volta do cativeiro) como para criar as condições para a calamidade, para o juízo sobre pessoas e povos. E ele fará isso, pois tem o poder em Suas mãos. Trará novamente seu povo de Israel para o caminho da paz e sobre muitas nações malignas trará calamidades, destruição, trará esse “mal” a elas. 


(4) Portanto, fica claro aqui que o profeta Isaías de forma alguma está ensinando que Deus é o criador do pecado, do mal moral, antes, a Bíblia afirma que Deus é amor (1 João 4:8), mas também afirma que Deus é justo juiz (Salmos 7:11) e é exatamente no papel de juiz que Ele é mencionado em diversos textos aplicando Sua justiça sobre nações conforme Seu julgamento preciso e conforme Sua soberania plena sobre tudo e todos!

O que são os provérbios antitéticos?

 


(1) A palavra “antitético” significa que algo apresenta uma "antítese" e “antítese”, por sua vez, significa uma figura que apresenta duas ideias opostas, um contraste dessas ideias opostas para reforçar um determinado ensino. Vejamos um exemplo prático: “Ele é um bom pai, mas um péssimo marido”. Observe que na frase temos uma primeira ideia “um bom pai” sendo colocada em contraste com uma oposição, ou seja, uma segunda ideia “péssimo marido”. Essa é a figura usada nos textos que estamos analisando em provérbios. 


(2) Isso significa que nesse grupo de 55 provérbios (Provérbios 28 e 29) temos ideias diferentes sendo colocadas em oposição umas às outras para extrair delas verdades importantes para reflexão. Vamos analisar alguns desses provérbios na prática para que essas antíteses usadas ali fiquem bem claras para você: 


Provérbios 28:1

Fogem os perversos, sem que ninguém os persiga; mas o justo é intrépido como o leão. 


Observe que na primeira parte o sábio coloca a primeira ideia: os perversos fogem mesmo sem que alguém os esteja perseguindo. A primeira ideia mostra o quão culpados os perversos são, o que faz com que eles estejam sempre ansiosos por perseguições que nem sempre existem. A segunda ideia de contraste: Mas o justo é intrépido como o leão. O justo, por ser justo e correto, não teme enfrentar qualquer acusação, ele enfrenta as coisas como um leão forte e valente! Conseguiu perceber o contraste das duas ideias? 


Provérbios 28:12 


Quando triunfam os justos, há grande festividade; quando, porém, sobem os perversos, os homens se escondem. 


Primeira ideia: Quando um justo, um homem íntegro e correto tem alguma promoção na vida, quando alcança algum poder e grandeza diante da sociedade, as pessoas se alegram por isso, fazem festa! Não há medo envolvido, mas alegria! Segunda ideia: Mas quando acontece a mesma coisa com homens perversos as pessoas ficam com medo, pois sabem que ele usará o poder para o mal. Percebeu as duas ideias “antitéticas”, ou seja, opostas e fazendo um contraste entre si? 


Provérbios 29:7 


Informa-se o justo da causa dos pobres, mas o perverso de nada disso quer saber.


Primeira ideia: O justo não tapa os seus ouvidos para os pedidos de ajuda dos pobres, antes, ele se preocupa com eles, com suas necessidades. Segunda ideia: O perverso não se importa com os pobres, não deseja saber o que precisam, não deseja ajudar mesmo que tenha condições para isso. Observe novamente as duas ideias opostas fazendo um contraste entre as atitudes de um homem justo (o que se espera de todos) e a atitude de um perverso (o que se espera que as pessoas não façam)! 


(3) Conforme você pode perceber, quando sabemos como é a estrutura desses provérbios, nesse caso, que ele se trata de uma oposição de ideias, fica muito mais fácil estudá-los. Esses provérbios antitéticos trazem esse foco central de oposição de ideias. Alguns deles são mais simples de entender, outros exigem maior estudo. Mas agora que você já sabe como eles foram escritos, que tal começar um estudo aprofundado dos provérbios antitéticos? Bons estudos!

O que significa fogo estranho na Bíblia? Lv 10,1

 

(1) Logo após serem consagrados (Levítico 8), Arão e seus filhos começam seus trabalhos no tabernáculo do Senhor. Existiam diversas regras específicas sobre como deveriam ser feitos os sacrifícios e todo o culto realizado ali. Algum tempo depois da consagração deles, observamos a narrativa de Levítico 10:1, que diz: “Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do SENHOR, o que lhes não ordenara” (Levítico 10:1). Na sequência temos a morte deles, quando um fogo arrasador sai ali daquele lugar e os mata queimados (Levítico 10:2). Mas o que era esse fogo estranho apresentado por eles e que causou tamanho furor em Deus? 


(2) Não é tão simples sabermos os detalhes desse pecado de Nadabe e Abiú. Mas é possível levantarmos algumas hipóteses: 



a) Os elementos usados estavam errados? Observe que Levítico 10:1 cita “Cada um o seu incensário”, o que pode nos levar a entender que não usaram incensários do tabernáculo, ou seja, aqueles que estavam prescritos para serem usados, que haviam sido consagrados para tal uso. Ainda temos a citação do “fogo estranho” na sequência. Seria esse fogo algum fogo não tirado do próprio altar do incenso como sugere Êxodo 30:1-9 e Levítico 16:12? Ou seja, um fogo de uma fonte externa não permitido? Ao que parece os dois sacerdotes poderiam ter desobedecido esses critérios com relação aos elementos usados. Observe o final do verso, que diz “o que lhes não ordenara”. O que fizeram estava contrário à ordem de Deus e existe a possibilidade de que os elementos usados estavam em desacordo com as instruções. 


b) Os procedimentos adotados estavam errados? Quando o texto diz que colocaram fogo estranho “perante a face do Senhor” parece nos indicar também erros quanto ao procedimento na realização da queima desse incenso nesses incensários. O texto não indica maiores detalhes, mas é possível que também não havia da parte de Nadabe e Abiú respeito diante das ordens e procedimentos corretos a serem realizados naquele trabalho em específico. 


c) Os procedimentos e elementos (ambos) estavam errados? Se unirmos os dois pontos acima talvez cheguemos a uma postura realmente mais grave. Os dois sacerdotes poderiam, nessa interpretação, além de terem oferecido um fogo estranho, com incensários indevidos, ainda terem realizado algum “método próprio” de culto, em um afronte claro às prescrições de Deus (o que lhes não ordenara). Isso explicaria a forte reação de Deus, com uma punição imediata com a morte deles. 


(3) A pergunta que fica é: porque Nadabe e Abiú fizeram isso dessa forma, sabendo e vendo tudo que Deus já havia feito em meio ao povo de Israel? A sequência do texto parece nos indicar um abuso de bebidas alcoólicas associado a tudo isso, pois as prescrições dadas por Deus em Levítico 10:8-11 diretamente a Arão e seus outros filhos falam desse tema: “Vinho ou bebida forte tu e teus filhos não bebereis quando entrardes na tenda da congregação, para que não morrais; estatuto perpétuo será isso entre as vossas gerações, para fazerdes diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo” (Levítico 10:9-10). Essa ordem de Deus logo após a morte de Nadabe e Abiú parece indicar que foi exatamente o fato de não fazerem diferença entre o que era santo (consagrado) ao Senhor e o que era profano (não apropriado para o culto) que os levou a cometer aquele grave erro de levar fogo estranho. E tudo isso ocorreu pelo uso excessivo de bebida alcoólica, o que potencializou ainda mais a ira de Deus sobre eles! 

sexta-feira, 12 de março de 2021

Os cristãos vão julgar os ímpios e os anjos?

 


(1) Paulo está repreendendo a igreja de Corinto, pois ela estava levando questões da igreja (desentendimentos entre irmãos da comunidade) para serem resolvidas pela justiça “do mundo”, ou seja, diante de ímpios: “Aventura-se algum de vós, tendo questão contra outro, a submetê-lo a juízo perante os injustos e não perante os santos?” (1 Coríntios 6:1). Paulo via isso como uma grande derrota e mau testemunho perante o mundo, além, claro, de demonstrar imaturidade dessa igreja, que não estava sendo capaz de resolver seus problemas com base nos ensinos de Cristo sobre perdão, reconciliação e outros deveres cristãos de uns para com os outros.



(2) Dentro desse contexto Paulo revela a eles o seguinte: “Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, sois, acaso, indignos de julgar as coisas mínimas?” (1 Coríntios 6:2). Esse texto faz surgir a seguinte pergunta: em que sentido os santos (crentes fieis) irão julgar o mundo? Sabemos que por nós mesmos não temos qualquer condição de nos colocar na posição de juízes, antes, somente somos perdoados de nossos próprios pecados por causa de Cristo. Logo, a fala de Paulo parece nos levar na direção de nossa identificação com Cristo. Quando Cristo voltar estaremos como Ele, ou seja, participaremos com Ele do grande julgamento, pois estaremos na posição de perdoados, de justificados. 


(3) Na sequência Paulo ainda revela um pouco mais sobre esse julgamento: “Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto mais as coisas desta vida!” (1 Coríntios 6:3). O ponto que Paulo quer destacar é que os crentes estão unidos ao grande juiz de todas as coisas. Observe que a Bíblia também cita que haverá o julgamento de anjos: “e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia” (Judas 1:6). Assim, podemos concluir que Paulo tinha em mente que os crentes, unidos com Cristo, participarão com Ele desse grande julgamento no último Dia. Claro, não por méritos deles próprios, mas pelos méritos de Cristo. Os crentes não serão os juízes que conduzirão tudo isso, mas estarão com o juiz de todas as coisas! 


(4) Tudo isso deveria levar a igreja de Corinto (e nós) a entender que nossa união com Cristo nos dá capacidade de resolver as demandas (bem menores) que ocorrem nesse mundo. Para Paulo era uma completa derrota que pessoas da igreja recorressem a justiça humana com questões que poderiam ser resolvidas por crentes maduros que estavam unidos com Cristo, o grande juiz. Paulo chega a declarar que o mau testemunho era tão grande que era preferível aceitar o dano do que levar questões perante incrédulos: “O só existir entre vós demandas já é completa derrota para vós outros. Por que não sofreis, antes, a injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano?” (1 Coríntios 6:7). Ou seja, como igreja de Cristo, seria melhor aceitar uma injustiça contra si mesmo para que o nome de Deus não fosse desonrado entre os ímpios! O chamado de Paulo é para que cada crente assuma seu lugar no reino de Deus e, desde já, pratique as boas obras que esse reino exige, pois a união dos crentes com Cristo não é algo pequeno, não é algo imprestável, antes, é algo que exige de nós a santificação de todos os nossos atos!


quinta-feira, 11 de março de 2021

COM QUE MULHER JÓ TEVE MAIS FILHOS DEPOIS QUE SUA VIDA FOI RESTAURADA?

 


(1) Jó é citado de forma muito elogiosa pelo Senhor, que o chama de homem reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1:1). A história mostra que ele tinha 7 filhos e 2 filhas (Jó 1:2). Também observamos a citação de sua esposa, que estava viva à época em que a narrativa acontece (Jó 2:9). Como sabemos, Jó teve sua fé provada, quando Deus permite que Satanás lhe tirasse diversas coisas, como seus bens (Jó 1:16), seus servos (Jó 1:17), seus filhos (Jó 1:18-19) e sua saúde (Jó 2:7-8).


(2) A sequência da história mostra que a esposa de Jó, amargurada com tudo aquilo que via o marido passar, desespera-se, dando ao marido já terrivelmente afetado pelas dores que estava passando, uma sugestão maldita: “Então, sua mulher lhe disse: Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2:9). Muitos se perguntam por que a mulher de Jó parece que some das narrativas? Ela teria morrido depois dessas palavras ditas a ele? 


(3) No exame da continuidade desse livro, observamos que Jó faz mais uma menção sobre sua situação diante da esposa, mostrando a profundidade de sua dor: “O meu hálito é intolerável à minha mulher, e pelo mau cheiro sou repugnante aos filhos de minha mãe” (Jó 19:17). Esse verso parece demonstrar que a esposa de Jó ainda está viva durante esse tempo mais difícil da provação de Jó. Ela nem morreu e nem se divorciou dele. O que existiu foi uma dificuldade imposta pela doença para que o casal tivesse sua vida normal, porém, ainda se mantém a aliança de casamento. Observe que até os irmãos de Jó (filhos de minha mãe) se afastam dele, tirando dele esse contato familiar mais próximo. 


(4) Quando a Bíblia narra a restauração de Jó, mostra que houve uma restauração da família dele e das amizades afastadas por causa de sua doença: “Então, vieram a ele todos os seus irmãos, e todas as suas irmãs, e todos quantos dantes o conheceram, e comeram com ele em sua casa, e se condoeram dele, e o consolaram de todo o mal que o SENHOR lhe havia enviado; cada um lhe deu dinheiro e um anel de ouro” (Jó 42:11). Na sequência temos a restauração do casamento no que diz respeito à relação de marido e mulher. Agora Jó não é mais repulsivo à sua mulher, pelo contrário, eles restauram os laços matrimonias de forma plena, inclusive tendo mais filhos e filhas: “Também teve outros sete filhos e três filhas” (Jó 42:13).


(5) Feitas essas observações, a meu ver não temos elementos para incluir uma nova esposa para Jó nessa narrativa. A restauração narrada parece ter ocorrido com a mesma esposa, que permaneceu viva, mas um pouco afastada, enquanto Jó passava pela grave provação. Alguns argumentam que Jó já deveria ser idoso quando houve essa restauração de Deus e, consequentemente, sua esposa também, então, ele não poderia ter tido esses novos filhos com ela. Porém, a julgar pelos exemplos bíblicos das bênçãos do Senhor, como no exemplo de Sara, que deu à luz por volta dos 90 anos de idade, essa possibilidade não seria um problema para o Senhor!