Gogue e Magogue é uma
expressão que aparece no livro do Apocalipse como uma referência ao conflito
final entre as forças satânicas e Cristo e Seu povo. Há muitas interpretações e
teorias acerca desse evento, o que acaba gerando ainda mais curiosidade entre
as pessoas acerca dessa expressão.
Gogue e Magogue no Antigo
Testamento
Gogue e Magogue são citados
em passagens do Antigo Testamento. No livro de Gênesis, Magogue é mencionado
como um descendente de Jafé (Gn 10:2; 1Cr 1:5). Já Gogue, é citado como um rubenita,
filho de Semaías (1Cr 5:4).
Apesar dessas referências
iniciais, a passagem mais importante sobre Gogue e Magogue encontra-se no livro
do Profeta Ezequiel (caps. 38 e 39). Gogue aparece como príncipe de Meseque e
Tubal, e Magogue como sendo um povo, ou seja, a “Terra de Magogue”. Logo, a
narrativa de Ezequiel apresenta Gogue da Terra de Magogue.
Gogue e Magogue no
Apocalipse
Como já dissemos, a
expressão “Gogue e Magogue” aparece no livro do Apocalipse para descrever uma
última batalha que precederá o Juízo Final (Ap 20:7-10).
O Apóstolo João relata que
acabado o Milênio, Satanás será solto por um pouco de tempo, “e saíra para
enganar as nações que estão nos quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, a fim
de reuni-las para a batalha. Seu número é como a areia do mar” (Ap 20:8).
João continua a narrativa
dizendo que as nações, persuadidas por Satanás, cercarão “o acampamento dos
santos, a cidade amada“, porém um fogo descerá do céu e as devorará, resultando
ainda na condenação eterna de Satanás no “lago de fogo que arde como enxofre“.
Depois disso, João começa a descrever em detalhes a cena do Juízo Final.
Gogue e Magogue e as
diferentes correntes escatológicas
Sabemos que existem
diferentes correntes escatológicas, e cada uma delas possui uma visão
específica acerca desse assunto.
Aqueles que defendem um
futuro reinado milenar e literal de Cristo na terra após a Sua segunda vinda,
afirmam que essa batalha de Gogue e Magogue ocorrerá ao término desse período,
quando Satanás for literalmente solto novamente para enganar as nações. Vale
dizer também que alguns pré-milenistas defendem que essa batalha ocorrerá antes
do Milênio.
Portanto, seguindo esse
raciocínio haverá então duas grandes batalhas finais: a batalha do Armagedom
antes do Milênio e descrita no capítulo 19 do Apocalipse, e a batalha de Gogue
e Magogue após o Milênio e descrita no capítulo 20 do Apocalipse.
Entre os defensores dessa
posição há muitas divergências acerca desse evento, de modo que seria
impossível citar cada uma delas. As mais comuns entendem que essa batalha de
Gogue e Magogue se refere ao ajuntamento de várias nações para atacarem Israel
no futuro.
As teorias sobre isso são
tão específicas que até mesmo nomes de nações já foram sugeridos, entre elas:
Rússia, Irã, China, Japão e Índia.
Já quem não defende um
futuro reinado literal de Cristo na terra, entendendo que o Milênio precede a
segunda vinda de Cristo, geralmente afirma que essa batalha é a mesma já descrita
no capítulo 19, isto é, o Armagedom.
Como interpretar Gogue e
Magogue?
Como vimos, a interpretação
acerca dessa batalha dependerá da maneira com que interpretamos e entendemos o
livro do Apocalipse e alguns eventos escatológicos descritos nele, sobretudo o
Milênio.
Antes de falarmos sobre o
Apocalipse, precisamos voltar ao livro do Profeta Ezequiel. Primeiro, é
necessário compreender que o livro de Ezequiel possui um intenso uso de
elementos simbólicos em suas profecias, num tipo de linguagem apocalíptica.
Os capítulos 38 e 39 do
livro de Ezequiel, que nitidamente são proféticos, realmente apresentam algumas
dificuldades de interpretação. Os estudiosos se dividem em diferentes opiniões.
Como já mencionamos, muitos especulam até mesmo sobre nomes de nações
contemporâneas dentro destes capítulos.
Talvez uma das teorias mais
conhecidas seja aquela que identifica Meseque e Tubal como as cidades russas de
Moscou e Tobolsk, e o “príncipe de Rôs” citado no versículo 2, como o “príncipe
da Rússia”, ou seja, Gogue seria o comandante russo que atacará Israel no
futuro.
Não precisamos nem dizer que
esse tipo de interpretação não encontra qualquer fundamentação bíblica. Outros
identificam Gogue com sendo Guigues, um rei da Líbia, conhecido nos textos
acadianos do século 7 a.C. como um vassalo dos assírios.
Uma boa interpretação sobre
assunto sugere que a profecia de Ezequiel se refere ao poder dos selêucidas,
especialmente com Antíoco Epifanes, inimigo terrível do povo judeu, cujo centro
do seu reino ficava localizado no norte da Síria.
Ao norte, o domínio dos
selêucidas incluía Meseque e Tubal, distritos da Ásia Menor. De acordo com essa
interpretação, a perseguição imposta por Gogue de Magogue, refere-se, em
Ezequiel, à dura perseguição imposta pelo governador da Síria, Antíoco Epifanes,
sob o povo de Deus.
Como disse, considero essa
uma boa interpretação, entretanto não creio que a profecia de Ezequiel se
esgote nesse período da História. Penso que Ezequiel também se refere, de forma
geral, a batalha final contra o povo de Deus, de maneira que o ocorrido com
Antíoco Epifanes tipifica uma perseguição ainda maior.
É interessante o uso
específico de “Meseque e Tubal”. Sempre que as ameaças a Israel são descritas
no Antigo Testamento, tais ameaças vêm do norte, geralmente referindo-se a Assíria,
Babilônia e Pérsia. Quando Ezequiel fez referência a “Meseque e Tubal” ele
utilizou tribos que viviam nos limites dos reinos do norte, no sentido de
mostrar que haveria uma oposição ainda mais difundida contra o povo de Deus.
Portanto, creio que a profecia
de Ezequiel se cumpriu em Antíoco Epifanes, mas também se cumpre em todos os
poderes orquestrados contra o povo de Deus.
Voltando agora ao
Apocalipse, podemos compreender que João tinha em mente esse terrível período
de dor e aflição quando usou a expressão “Gogue e Magogue”. A grande opressão
que o povo de Deus suportou na antiga dispensação, serve de símbolo para a
maior opressão que o povo de Deus precisará suportar na nova dispensação.
Logo, a expressão Gogue e
Magogue se refere ao ataque final das forças anticristãs lideradas por Satanás
contra a Igreja de Cristo. João identifica Gogue e Magogue como “as nações que
há nos quatro cantos da terra“, ou seja, não se trata de uma nação específica,
mas a totalidade do mundo, isto é, a perseguição do mundo iníquo contra a
Igreja.
João ressalta que o exército
dessa batalha é muito numeroso, tanto como a areia do mar. Nos dias do governo
de Antíoco Epifanes, o povo de Israel parecia indefeso diante do poder do
exército sírio. Da mesma forma, nos últimos dias que precedem a volta de
Cristo, a opressão será tão grande que a Igreja parecerá indefesa diante do
poder perseguidor do mundo.
Outro fato interessante é
que, apesar de intenso e severo, o domínio de Antíoco Epifanes teve breve
duração, tal como será o curto período de tempo de grande tribulação sobre a
terra, conforme Jesus alertou em seu sermão escatológico (Mc 13:20; cf. Ap
11:11).
Também vale ressaltar que a
derrota das forças da Síria foi surpreendentemente inesperada, ou seja, foi uma
interferência direta de Deus. Da mesma forma ocorrerá nos momentos finais da
presente era com o retorno de Cristo.
Portanto, o capítulo 20 do
Apocalipse não descreve um conflito entre nações, mas um conflito entre a
Igreja e o mundo. Esse conflito de Gogue e Magogue é o mesmo já citado em
outras partes do próprio Apocalipse (cf. Ap 16:12ss; 19:19).
Note que em Apocalipse 16:14
lemos a expressão “a fim de reuni-los para a batalha do grande dia do Deus
todo-poderoso“. Já em Apocalipse 19:19, a expressão é a seguinte: “para
batalharem contra aquele que estava assentado sobre o cavalo, e ao seu
exército”.
Finalmente em Apocalipse
20:8, somos informados de que Satanás sairá “a enganar as nações que estão
sobre os quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, cujo número é como a areia do
mar, para as ajuntar em batalha“. No original, lemos em todos estes casos a
expressão “a peleja“.
A descrição que João faz
acerca da batalha do Armagedom (Ap 19:17-21) é uma clara evidencia de que se
trata da mesma batalha do capítulo 20 do Apocalipse. Perceba que no capítulo
19, João também faz referência a mesma passagem do livro de Ezequiel (Ez
39:17-20). Em ambas as passagens as aves do céu se fartam da carne e do sangue
dos poderosos da terra.
Devemos nos lembrar de que o
livro do Apocalipse está organizado em sete seções paralelas e progressivas, ou
seja, a mesma história é contada e recontada com perspectivas diferentes, de
modo que a narrativa vai se tornando mais intensa e detalhada conforme
avançamos para o final do livro.
O detalhe particular do
capítulo 20 acerca dessa mesma batalha já mencionada e que as outras
referências ainda não haviam esclarecido, fica por conta da descrição do que
acontece com Satanás, ou seja, nas outras referências João já havia descrito a
queda dos ímpios e a queda dos aliados do dragão (a besta, o falso profeta e a
grande Babilônia). Faltava apenas ele descrever a queda do dragão.
Como Satanás é o maior
oponente de Cristo, naturalmente sua queda é narrada por último. Isso é
exatamente o que ocorre no capítulo 20. Para saber mais sobre isso leia os
textos: “Como Estudar o Livro do Apocalipse” e “Leitura de Recapitulação ou
Sucessão em Apocalipse“.
Gogue e Magogue é o
Armagedom, é o pouco tempo de Satanás, é a grande tribulação, é o período mais
terrível da História, onde o dragão e seus aliados perseguirão duramente o povo
de Deus.
Todavia, o livro do
Apocalipse nos mostra que todos estes inimigos de Cristo e de Sua Igreja caem
juntos, ao mesmo tempo, em um único evento, em uma única batalha. Todos são
destruídos na segunda vinda de Cristo, onde o Cordeiro virá para livrar o Seu
povo, onde a cólera de Deus será derramada, onde o juízo de Deus estará
completo. Esse dia será maravilhoso para uns e aterrorizante para outros.
Para concluir, quero dizer
que embora existam diferentes opiniões sobre o assunto, o importante é que
todas elas concordam que nessa batalha Satanás será condenado eternamente no
lago de fogo e enxofre, e de dia e de noite, juntamente com seus aliados, será
atormentado.