Aqui vai o resumo como a tradição apócrifa conta:
1. Quem eram os gigantes antes e depois do Dilúvio?
Antes do Dilúvio: Os Nefilins
Os gigantes originais são os Nefilins.
Segundo 1 Enoque 6-7, eles eram filhos dos Vigilantes / Guardiães – um grupo de 200 anjos que desceram ao Monte Hermon, liderados por Semiazaz e Azael – com mulheres humanas.
Eles não eram apenas homens altos. Eram uma raça híbrida, monstruosa:
1. Nefilins - a primeira geração - Gigantes de 3.000 côvados de altura segundo 1 Enoque 7:2 – um número claramente simbólico para "colossais".
2. Nafils - a segunda geração - Filhos dos Nefilins
3. Elioud - a terceira geração - Filhos dos Naflis com humanas, menores que os pais, mas ainda gigantes.
Eles devoraram toda a produção humana, depois começaram a devorar os próprios homens, animais, e a beber sangue. Foi essa violência e corrupção que, segundo Enoque, foi a causa real do Dilúvio – não só o pecado humano comum.
Eram reis, guerreiros e corruptores. Enoque os chama de "espíritos maus".
Eles morreram no Dilúvio. Todos os corpos foram destruídos.
Depois do Dilúvio: Os Refains
É aqui que os apócrifos resolvem um problema que a Bíblia deixa em aberto: se o Dilúvio matou todos os gigantes, por que Gênesis, Números, Deuteronômio e Josué ainda falam de gigantes em Canaã?
A resposta apócrifa tem 2 partes:
a) Os espíritos sobreviveram.
Quando os Nefilins morreram no Dilúvio, suas almas híbridas – metade anjo imortal, metade homem mortal – não puderam ir para o descanso. Elas ficaram presas na terra como espíritos desencarnados.
1 Enoque 15:8-12 é explícito: "E agora, os gigantes que nasceram dos espíritos e da carne, serão chamados espíritos maus sobre a terra [...] os espíritos dos gigantes afligem, oprimem, destroem, atacam".
Ou seja: os gigantes pré-diluvianos viraram os demônios. É a origem dos demônios na literatura enoquiana, diferente da ideia posterior de anjos caídos de Lúcifer.
b) Eles nasceram de novo.
Jubileus 7:21-25 e os fragmentos do Livro dos Gigantes de Qumran explicam que o sangue dos Vigilantes ainda estava corrompido na linhagem humana.
Os gigantes pós-diluvianos são uma segunda onda, menores e mais fracos, mas ainda descendentes dessa corrupção antiga. Na Bíblia e nos apócrifos eles aparecem com vários nomes de clãs, todos ligados aos Refains:
- Refains: o termo genérico. Ogue, rei de Basã, era o último dos Refains, com uma cama de ferro de 9 côvados, cerca de 4 metros
- Anaquins: os gigantes que os espias viram em Hebrom. "E éramos aos nossos olhos como gafanhotos, e assim também éramos aos seus olhos" – Números 13:33
- Emins e Zanzumins: em Moabe e Amom, Deut. 2:10-21
- Nefilins de novo: Números 13:33 os chama explicitamente de "filhos de Anaque, da raça dos Nefilins"
Para os autores apócrifos, Golias e os guerreiros filisteus de 6 dedos em 2 Samuel 21:20 eram os últimos resquícios dessa linhagem, exterminados por Davi e seus homens. Com isso, a raça dos gigantes se extingue de vez.
Resumo:
- Antes = Nefilins/Nafils/Elioud, filhos diretos de anjos, colossais, causa do
- Dilúvio. Depois = Refains/Anaquins, descendentes corrompidos, menores, exterminados na conquista de Canaã. E os espíritos dos primeiros viraram os demônios que assombram o mundo até hoje.
2. Como eles surgiram?
É a história dos Vigilantes, em 1 Enoque 6-16, que é o texto fundador de toda essa tradição.
1. A descida. 200 anjos da classe dos Vigilantes, que deveriam vigiar a humanidade, viram as filhas dos homens e foram tomados de desejo. Fizeram um juramento no Monte Hermon, sob Semiazaz: "tomemos para nós mulheres".
2. O casamento proibido. Eles desceram, tomaram esposas humanas e ensinaram à humanidade artes proibidas. Azael ensinou metalurgia para armas, cosméticos e feitiçaria. Outros ensinaram astrologia, encantamentos, corte de raízes.
3. O nascimento. Dessas uniões nasceram os gigantes, os Nefilins. Por serem híbridos de espírito celeste e carne mortal, eram violentos, insaciáveis e corromperam toda a terra.
4. O julgamento. Deus envia Miguel, Gabriel, Rafael e Uriel. Os Vigilantes são acorrentados nas trevas até o Juízo Final. Seus filhos gigantes são condenados a se matarem uns aos outros, e depois a morrerem no Dilúvio.
Jubileus acrescenta um detalhe: 10% dos espíritos dos gigantes foram deixados soltos na terra sob o comando de Mastema, o chefe dos demônios, para testar a humanidade até o fim dos tempos. Os outros 90% foram presos.
Essa é a versão que a Igreja Etíope preservou como canônica em 1 Enoque, que Judas 1:14-15 cita diretamente no Novo Testamento, e que aparece nos Manuscritos do Mar Morto. No judaísmo rabínico e no cristianismo ocidental posterior ela foi rejeitada como apócrifa, e os "filhos de Deus" de Gênesis 6 passaram a ser interpretados como descendentes de Sete, ou reis tiranos – justamente para evitar a ideia de anjos se reproduzindo com humanas.
Essa genealogia não é uma linhagem biológica limpa como a de Adão. É uma linhagem de corrupção, com 3 ondas: os anjos, os gigantes originais, e os clãs gigantes pós-diluvianos.
ONDA 1: Os Pais – Os Vigilantes
São os 200 anjos que desceram no Monte Hermon. 1 Enoque 6:7 lista os 20 chefes.
Os principais, que importam para a história dos gigantes:
- Semiazaz: o líder do juramento. Pai dos primeiros Nefilins
- Azael / Azazel: o segundo em comando. Não é citado como pai biológico, mas como o corruptor. Ensinou aos homens a fazer espadas, facas, escudos, e às mulheres a usar cosméticos e feitiçaria. Por isso levou a culpa maior, e foi acorrentado sozinho em Dudael até o Juízo
- Outros 18 chefes: Araqiel, Râmiel, Kokabiel, Tamiel, Ramiel, Daniel, Ezequiel, Baraquiel, Asael, Armaros, Batriel, Ananel, Zaqiel, Samsapeel, Satarel, Turel, Jomjael, Sariel
Cada um tomou esposas humanas e ensinou uma arte proibida: astrologia, sinais do sol e da lua, corte de raízes, encantamentos.
ONDA 2: Os Gigantes Pré-Diluvianos – Os Nefilins
Filhos diretos de anjos + mulheres humanas. Corpos mortais, espíritos imortais.
1 Enoque dá 3 gerações, cada uma menor que a anterior:
1. Nefilins: 3.000 côvados de altura. Devoraram toda a terra
2. Nafils: filhos dos Nefilins
3. Elioud / Elijo: netos, ainda gigantes mas já mais próximos dos humanos
Os nomes individuais só aparecem no Livro dos Gigantes, encontrado fragmentado em Qumran. São os filhos de Semiazaz:
- Ohya e Hahya: os dois irmãos gigantes que têm sonhos proféticos sobre o Dilúvio. Um sonha com uma tábua sendo lavada pela água, o outro com um jardim sendo destruído. Vão até Enoque pedir a interpretação
- Mahway / Mahawai: filho do Vigilante Baraqel. É enviado pelos gigantes para falar com Enoque e implorar por perdão. Enoque responde que não há perdão para eles
- Gilgamesh / Gilgamés: sim, o mesmo da epopeia suméria. Um fragmento de Qumran lista Gilgamesh como um dos gigantes, mostrando como a tradição enoquiana absorveu os heróis antigos
Todos morrem no Dilúvio. Os corpos são destruídos, mas os espíritos não.
O elo crucial - Nefilins mortos no Dilúvio → espíritos desencarnados → demônios
1 Enoque 15: "os espíritos dos gigantes afligem, oprimem, destroem". Eles viram os espíritos maus que atormentam a humanidade. É a origem dos demônios na literatura apócrifa, bem antes da ideia de anjos caídos de Lúcifer.
Jubileus 10 diz que 90% desses espíritos foram presos, e 10% foram deixados soltos sob Mastema, o chefe dos demônios, para testar os homens até o fim dos tempos.
ONDA 3: Os Gigantes Pós-Diluvianos – Os Refains
Como eles voltaram se o Dilúvio matou todos? Os apócrifos dão 2 explicações que circulavam juntas:
1. A corrupção dos Vigilantes sobreviveu na linhagem de Noé, pelas noras
2. Os espíritos dos Nefilins continuaram corrompendo nascimentos
Eles são menores, mais fracos, mas ainda gigantes. Na Bíblia e nos apócrifos aparecem como clãs em Canaã, todos chamados coletivamente de Refains, "os enfraquecidos / os mortos":
Clã | Onde viviam | Referência |
Anaquins | Hebrom | Filhos de Anaque. Os espias disseram: "éramos como gafanhotos" |
Emins | Moabe | "povo grande e numeroso, alto como os Anaquins" |
Zanzumins / Zamzumins | Amom | Outro ramo dos Refains |
Refains de Basã | Basã, Golã | O último reduto |
O último grande rei dessa linhagem - Ogue, rei de Basã
- Último dos Refains, Deut. 3:11
- Sua cama de ferro tinha 9 côvados de comprimento, cerca de 4 metros
- Derrotado por Moisés
E o último resquício - Golias e os irmãos de Gate
- Golias de Gate: 6 côvados e um palmo, cerca de 2,9 m
- 2 Samuel 21:20 cita seus parentes: um homem "de grande estatura, que tinha seis dedos em cada mão e seis dedos em cada pé"7
- Mortos por Davi e seus guerreiros
Com Davi acaba a linhagem física dos gigantes. O que sobra são só os espíritos da Onda 2, os demônios, que segundo Enoque continuam ativos até o Juízo Final.
Observação
3.000 côvados valor em metros hoje
Os 3.000 côvados de 1 Enoque 7:2 são propositalmente absurdos, é o texto dizendo "colossais além de qualquer medida humana".
Mas fazendo a conta:
Um côvado bíblico, a medida do cotovelo até a ponta do dedo médio, tem duas medidas principais usadas na época:
· Côvado comum: cerca de 44,5 cm a 45 cm
· Côvado real / longo: cerca de 52,5 cm
Então 3.000 côvados dão:
Medida | Cálculo | Altura |
Côvado comum | 3.000 × 0,445 m | 1.335 m |
Côvado real | 3.000 × 0,525 m | 1.575 m |
Ou seja, entre 1,3 e 1,5 km de altura.
Por isso a maioria dos estudiosos lê os "3.000 côvados" como uma corrupção textual ou um número simbólico. Nas versões etíopes mais tardias e em alguns fragmentos gregos o número já aparece bem menor, 30 côvados, cerca de 13 a 15 metros, que ainda é gigantesco mas pelo menos cabe na terra.
Para comparação, os gigantes pós-diluvianos que a Bíblia descreve são bem mais "pé no chão": Ogue de Basã tinha uma cama de 9 côvados, cerca de 4 metros, e Golias tinha 6 côvados e um palmo, cerca de 2,7 a 2,9 metros.

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